A JOCUM E O DEBATE SOBRE IGREJA LOCAL

A JOCUM E O DEBATE SOBRE IGREJA LOCAL

A discussão sobre se a JOCUM é ou não um modelo de igreja precisa ser analisada dentro de um panorama histórico e bíblico mais amplo. Antes da Reforma Protestante, a igreja cristã se expressava basicamente em duas formas inseparáveis:
  1. A paróquia, a igreja local, enraizada na cidade ou no vilarejo, cuidando do rebanho, celebrando os sacramentos, pregando e discipulando.
  2. Os mosteiros, comunidades de homens e mulheres que escolheram dedicar-se integralmente à vida cristã, em comunhão, serviço e missão.
Ambas eram expressão da igreja, não havia competição ou separação absoluta entre elas. Ao contrário: a paróquia se fortalecia por meio da vitalidade espiritual e missionária dos mosteiros, enquanto os mosteiros também eram, na prática, igreja, partindo o pão, celebrando a ceia, levantando doações, evangelizando e enviando missionários. Os mosteiros formaram líderes e deram vigor à expansão missionária da fé.
Com a Reforma Protestante, Martinho Lutero enfatizou a centralidade das paróquias e considerou que os mosteiros já não eram necessários. No entanto, mesmo após a Reforma, persistiu a consciência de que a igreja precisava de estruturas móveis para formar líderes, enviar missionários e alcançar novos povos. Aqui é importante trazer a contribuição de Ralph Winter, que resgatou as categorias históricas de modalidade (igreja local) e sodalidade (igreja móvel)1http://www.undertheiceberg.com/wp-content/uploads/2006/04/Sodality-Winter%20on%20Two%20Structures1.pdf.
Na Bíblia, vemos claramente esse modelo em Atos: Paulo e Barnabé foram separados pelo Espírito Santo para uma obra missionária. Eles se tornaram expressão da “igreja móvel”, fundando comunidades locais e fortalecendo-as. Esse é um padrão clássico de movimento apostólico: a igreja enviada que multiplica novas igrejas.
JOCUM dentro dessa lógica
Aplicando essa lógica, podemos ver:
  • As denominações hoje representam a modalidade (igrejas locais, paroquiais, fixas nas cidades).
  • A JOCUM é um exemplo de sodalidade, ou igreja móvel, comunitária, missionária e apostólica.
É equivocado dizer que a JOCUM não é igreja ou que é “paraclerical” (fora da Ekklesia). Isso é um erro semântico e teológico, porque a JOCUM expressa todos os elementos bíblicos de uma igreja: comunhão (koinonia como resposta para a sociedade), partir do pão, discipulado, evangelização, envio de obreiros, cuidado com os pobres e órfãos, liderança espiritual (presbitério), ministério pastoral e diaconal. A diferença é que, em vez de estar centralizada em um pastor e em uma capela, ela se organiza como comunidade missionária de fé e prática. Eu chamo isso de movimento apostólico!
O desafio do contexto
No Brasil, que já possui uma forte presença denominacional, é fácil interpretar a JOCUM como se fosse uma concorrente da igreja local. Alguns líderes temem perder membros ou mantenedores. Esse medo, porém, é infundado. A JOCUM não tem nem a pretensão nem o desejo de ser uma denominação, de se tornar “Igreja JOCUM”, nem de competir por membros.
Mas, em contextos transculturais, onde não há igreja local, a JOCUM naturalmente se expressa como igreja. Ali, os missionários evangelizam os primeiros convertidos, realizam batismos, iniciam reuniões nas casas e acompanham os discípulos até que eles próprios organizem igrejas locais, que podem assumir identidade própria. Temos hoje relatos de milhares de pessoas alcançadas e novas comunidades surgindo exatamente dessa forma.
Exemplos históricos de comunidades de fé
Esse modelo não é novo. Os kibbutzim judaicos2https://www.jewishagency.org/what-exactly-is-a-kibbutz mostram como a vida comunitária e o trabalho conjunto fortalecem a identidade e a missão de um povo. Os moravianos no século XVIII também viveram em comunidades de prática de fé, que se tornaram um dos maiores movimentos missionários da história moderna. A JOCUM segue nessa mesma linha: uma comunidade prática de fé.
O risco e o ajuste necessário
Um ponto de atenção importante é evitar o erro de pensar que uma sodalidade (igreja móvel) não tem responsabilidade com os novos convertidos. Esse é um ponto que precisa de correção prática e teológica. A JOCUM, como expressão de igreja móvel, deve assumir o discipulado dos frutos que Deus confia, especialmente em contextos transculturais ou de escacez de igrejas locais.
Conclusão
Portanto, não há base bíblica ou histórica para dizer que a JOCUM não é igreja. O que podemos afirmar é que:
  • A JOCUM não é e não pretende ser uma igreja denominacional ou institucional.
  • Mas ela é, sim, uma igreja móvel, apostólica e comunitária, que pratica todos os elementos do corpo de Cristo.
  • Seu modelo descentralizado e não centrado em um único pastor é, inclusive, um contraste saudável com a fragilidade de modelos excessivamente clericalizados.
Em resumo: a JOCUM é parte do corpo, parte da Igreja de Cristo, com uma expressão missionária e comunitária distinta da igreja paroquial, mas igualmente bíblica e legítima.

Apêndice 1 – Relação entre a JOCUM (igreja móvel) e a igreja local
Ao refletirmos sobre a função da JOCUM como expressão de igreja móvel no corpo de Cristo, é importante enfatizar que não buscamos substituir a igreja local. Pelo contrário, recomendamos fortemente que cada pessoa envolvida na JOCUM seja enviada por uma igreja local e mantenha vínculo ativo com ela.
Sempre que possível, encorajamos que nossos obreiros e alunos congreguem em uma comunidade cristã já estabelecida na cidade, no bairro ou no vilarejo em que estão inseridos. Reconhecemos que a igreja local desempenha um papel fundamental na vida cristã: cuidado pastoral, acompanhamento contínuo, intercessão, discipulado e vida comunitária.
Portanto, a JOCUM não deseja “atrair” ou “reter” membros de igrejas locais em caráter exclusivo. Nossa ênfase é missional, não denominacional. Quando um cristão serve em uma base da JOCUM, ele está participando de uma comunidade missionária de fé, mas sem romper sua ligação com a igreja local, que é parte indispensável da vida no corpo de Cristo.

 


Observações, esse não é um documento oficial de Jovens Com Uma missão como instituição, são pensamentos e opiniões pessoais minhas.  – Hiago Angelucci
  • 1
    http://www.undertheiceberg.com/wp-content/uploads/2006/04/Sodality-Winter%20on%20Two%20Structures1.pdf
  • 2
    https://www.jewishagency.org/what-exactly-is-a-kibbutz

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