JOCUM: os anos da poda, o tempo do jubileu e a transição dos ciclos
Há alguns meses tenho pensado, orado e refletido sobre este momento que estamos atravessando como movimento missionário na JOCUM Brasil, compartilhei com nossos grupo obreiros da Jocum Almirante em duas reuniões por 2 semanas sobre os tópicos abaixo e ouve um senso comum de que essa reflexão é para esse tempo. Em meio a conversas, tempos de silêncio e busca no Senhor, senti no coração o desejo de abrir minhas percepções com meus irmãos, não como alguém que tem as respostas, mas como alguém que está na busca pelas revelações do Senhor para nosso movimento.
PARTE 1
Entrando no último ano da poda do Senhor.
Acredito que a maioria dos líderes da Jocum esteja familiarizada com o que aconteceu com o mundo e com a própria Jocum a partir de 2020. É impossível esquecer os anos caóticos do Covid, os conflitos mundiais, as perdas de pessoas e ministérios e, principalmente, as intensas batalhas contra as agendas culturais e ideológicas que se opõem de forma cada vez mais aberta às verdades do Evangelho.
Em 2019, Tom Bloomer, então presidente da Universidade das Nações e ancião internacional da Jocum, compartilhou uma visão profética de Deus sobre as nações e, posteriormente, sobre a própria Jocum. Ele a intitulou “YWAM 60th 2020: A Time to Die” (“JOCUM 60 anos: Um Tempo para Morrer”). Você pode conferir essa palavra no link abaixo:
https://tombloomer.com/2020/04/02/ywam-60th-2020-a-time-to-die/
A introdução dessa visão está registrada nos arquivos pessoais de Tom Bloomer, conforme o texto abaixo:
“Longa Batalha Espiritual” é um dos nomes que estou usando para descrever os sete anos sombrios que temos diante de nós, sete anos de inverno e nunca Natal. Falei em uma conferência aqui em setembro de 2019 que um juízo severo varreria a Europa e o mundo, e que desta vez nenhuma nação seria poupada. No início deste verão, recebi uma palavra sobre uma severa depressão econômica que está por vir, semelhante à que o mundo enfrentou na década de 1930.
Obviamente, sabemos que essas palavras se cumpriram e nos afetaram diretamente, tanto no âmbito pessoal quanto no ministerial. Nos últimos seis anos, tenho refletido com frequência sobre o que viria depois desse período de sete anos mencionado por Tom Bloomer, uma palavra que eu, juntamente com outros líderes, reconhecemos como vinda de Deus para nós, apontando para um tempo de podas, perdas e longas batalhas.
Diante dessa inquietação, em meio a períodos de oração e espera no Senhor, creio ter recebido um insight, um discernimento sobre o tempo em que estamos e, de modo especial, sobre aquilo que Deus está preparando para o ano de 2026.
Uma nova semente para um novo tempo
O final desse ciclo de sete anos marca o momento para uma nova semente para a nossa missão. Apesar de parecer uma afirmação um tanto genérica, ao meditar em Gênesis 47:23 explico o porquê dessa afirmação, como ela faz sentido e por que chamou profundamente minha atenção.
“Eis que hoje vos comprei as terras… aqui tendes semente; semeai a terra.”
Essa passagem surge no contexto em que José, após interpretar o sonho de Faraó, vive o cumprimento da revelação. Quando chegamos a esse versículo, José estava justamente entre o sexto e o sétimo ano do tempo de fome, e o texto mostra o momento em que o povo, esgotado e sem recursos, se aproxima do Egito para sobreviver. É então que José lhes diz: “Eis que hoje vos comprei as terras… aqui tendes semente; semeai a terra.”
Ao olhar para os últimos anos e para a palavra profética compartilhada por Tom Bloomer, vejo um paralelo evidente. Ao nos aproximarmos do fim desse período, creio que o Espírito Santo está novamente nos chamando, assim como José fez, para receber uma nova semente. Essa semente representa algo que o Senhor está confiando em nossas mãos, algo que não tínhamos recebido até então, mas que agora está claramente diante de nós.
Essas sementes podem ser novos projetos, visões e grandes oportunidades que precisam ser semeadas nessa nova estação que se abre à nossa frente. Lembro-me nitidamente do grande rompimento e crescimento aos quais Loren nos animava a prestar atenção e esperar no Senhor.
E não é apenas uma semente que vamos receber; receberemos também terras que ainda não foram aradas. Recentemente, o Senhor também me levou à palavra do profeta Oséias, que diz:
“Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; arai o campo de pousio, porque é tempo de buscar ao Senhor, até que Ele venha e chova a justiça sobre vós.” (Oséias 10:12)
Na tradição judaica, o campo de pousio é uma terra parada, abandonada ou devastada, que precisa ser novamente arada para voltar a produzir. É uma imagem poderosa. Deus está nos convidando a retornar às terras esquecidas, aos lugares e ministérios que pareciam estéreis ou, de forma ainda mais desafiadora, às terras que nunca tivemos coragem de ousar investir, chamando-nos para novos paradigmas missionários.
Esse chamado, porém, vem acompanhado de um custo. Não vejo isso como algo simples ou que apenas nos alegrará. Arar essa nova terra exigirá ainda mais esforço, fé e obediência. Exigirá disposição para trabalhar de maneira diferente, crendo e permanecendo próximos do Senhor, pois é Ele quem dará o crescimento esperado.
A conexão e o sentido entre essas duas palavras são muito claras para mim. Assim como José entregou sementes ao povo no final do ciclo de escassez para que pudessem produzir novamente, Deus está colocando sementes em nossas mãos neste tempo em que se encerra a estação da poda. Chama-me a atenção perceber que, se o povo não tivesse recebido aquelas sementes, teria permanecido dependente do Egito; mas, ao recebê-las, pôde voltar a cultivar, gerar sustento e edificar suas famílias.
Da mesma forma, creio que o Senhor está nos chamando a sair da dependência do “Egito”, dos sistemas humanistas e das formas que já não produzem vida, e a semear novamente, acreditando que um novo ciclo começa.
Estamos, portanto, diante de uma estação de renascimento e reconstrução. Creio que o Senhor está dizendo: “Aqui tendes semente; semeai a terra!”
PARTE 2
O Jubileu da Jocum Brasil
Neste ano, celebramos com gratidão os 50 anos da Jocum Brasil. E, assim como tenho refletido sobre o ciclo dos sete anos de batalhas e podas, também me coloquei em oração e discernimento diante do Senhor, buscando compreender o que o tempo do jubileu significa para nós como movimento missionário.
Em Levítico 25:9-10, Deus explica o funcionamento desse tempo sagrado:
“Então farás tocar a trombeta do jubileu, no décimo dia do sétimo mês, no dia da expiação; fareis soar a trombeta por toda a vossa terra. E santificareis o ano quinquagésimo e proclamareis liberdade em toda a terra a todos os seus habitantes; isto vos será jubileu: cada um voltará à sua possessão, e cada um voltará à sua família.”
Na Bíblia, o jubileu representa um tempo de restituição, de perdão e de renovo. Era o momento em que o povo de Israel retornava às suas origens, restaurava relacionamentos e recuperava o que havia sido perdido. O jubileu é, portanto, uma expressão da graça, da reconciliação e da redenção de Deus, refletindo Sua misericórdia e Seu desejo de restaurar completamente a comunidade.
O que pode significar para nós?
Ao ponderar sobre esse marco dos 50 anos da Jocum Brasil, acredito que o jubileu nos convida a três movimentos espirituais principais: libertar, reconciliar e recomeçar.
Tempo de libertar e liberar
Devemos nos perguntar: existem dívidas que precisam ser perdoadas entre nós? E não me refiro apenas a dívidas financeiras, mas também a dívidas relacionais, mágoas, ofensas, rupturas, expectativas frustradas e feridas ministeriais. O jubileu é um chamado para soltar as amarras, liberar pessoas e restaurar a comunhão.
O jubileu também é um tempo de envio e liberdade. Assim como, no jubileu bíblico, cada pessoa podia voltar à sua possessão, há ministérios e pessoas que precisam ser liberados com bênção, sem peso de dívida ou controle. Pode haver entre nós obras que o Senhor está chamando a amadurecer, multiplicar ou caminhar em novas direções, e este é o tempo de confiar e enviar.
Tempo de reconciliar
O jubileu também é um convite a reconciliações profundas. Talvez este seja o momento de nos perguntarmos se existem acertos a serem feitos entre líderes e anciãos.
Quem perdemos pelo caminho? Quais relacionamentos foram rompidos por conflitos nunca resolvidos? Que alianças e parcerias precisam ser restauradas?
Este é o tempo de andar novamente juntos, curar feridas e reconstruir as relações entre gerações, bases e ministérios.
Tempo de recomeçar ou transicionar
O jubileu marca também o início de um novo ciclo, um tempo de renovo, amplitude e novas possibilidades. Na tradição de Israel, se um pai ou patriarca havia perdido a herança familiar, o jubileu era o momento em que essa terra era devolvida.
Assim também conosco. Mesmo que, em nossa família espiritual, tenhamos vivido perdas, erros ou rupturas, não estamos condenados a um destino de fracasso. O jubileu é o tempo de reivindicar aquilo que foi perdido, um momento de esperança e de acreditar que Deus nos está concedendo uma nova chance.
Creio que este jubileu aponta para uma estação de mudanças significativas, em que novas oportunidades e portas se abrirão diante de nós como Jocum Brasil. O Senhor já está movimentando as águas e preparando o terreno para um tempo de crescimento, expansão e unidade. Vemos sinais disso na nação e também em eventos que estão por vir, como o THE SEND no próximo ano, que podem marcar um novo despertar missionário.
“Santificai o ano quinquagésimo e proclamai liberdade em toda a terra…” (Levítico 25:10)
O Senhor nos revela Seu coração e Seu desejo para que nos santifiquemos. Vejo uma grande oportunidade para nós, líderes e anciãos, lidarmos com assuntos difíceis, limparmos nossos corações, não darmos espaço ao cinismo e abraçarmos nossa vulnerabilidade e interdependência mútua, para que possamos fazer essa travessia para o novo ciclo do jubileu que se inicia no próximo ano. Creio que seja um excelente momento para sondarmos nossos corações e sermos conduzidos a momentos de arrependimentos coletivo.
PARTE 3 / Uma palavra para nossos anciãos
Entre o descanso e a continuidade
Enquanto a Jocum Brasil entra em seu tempo de jubileu, também testemunhamos um movimento paralelo e igualmente significativo: os anciãos que estão jubilando junto com o movimento. Isso nos leva a uma pergunta importante: o que esse jubilar dos anciãos pode significar espiritualmente para nós?
Creio que esse momento aponta, antes de tudo, para um tempo de descanso e confiança nas promessas de Deus. Ao longo da história bíblica, vemos gerações que, após cumprirem fielmente sua missão, foram chamadas a abrir caminho para os mais novos. Com isso, devemos reconhecer o valor dos anciãos que permanecem como referência, cobertura e testemunho, enquanto uma nova geração assume os desafios do próximo ciclo.
Sinto que há anciões que podem estar segurando firmemente algumas coisas das quais o Senhor já pediu para liberar, soltar e descansar Nele. São ciclos que se fecham e que abrem oportunidades para outros liderarem e seguirem servindo nosso movimento da Jocum.
Há beleza e sabedoria espiritual nesse lugar. Não se trata de ausência de liderança, mas de transições saudáveis. É um convite do próprio Jesus para confiar e descansar, sabendo que o Senhor continuará conduzindo a Jocum mesmo na ausência dos nossos fundadores. Jesus é o maior interessado em conduzir a Jocum pelos próximos 50 anos em nossa nação e que Ele continuará guiando Seu povo, pelo amor ao Seu nome e pelo zelo da Sua própria glória.
Conclusão
Uma transição para um novo ciclo
Como mencionei acima o jubileu, é sempre um sinal de novos ciclos, carregando consigo a ideia de continuidade, e não de ruptura. Alguns costumes, estruturas e estratégias podem, e talvez precisem, ser transitórios. No entanto, os valores do Reino de Deus permanecem eternos. O que vemos é Jesus, mais uma vez, moldando a Jocum para um novo ciclo de cinquenta anos, ajustando formas sem comprometer fundamentos.
Diante disso, encorajo vocês a fazerem algumas perguntas: o que Jesus está colocando de novo em nossas mãos? Quais são as sementes que Ele está confiando a esta geração para o próximo tempo? Quais são as coisas que devemos deixar ir?
Creio também que esse novo ciclo é um chamado para resgatarmos nosso lugar de vanguarda, um espaço de inovação, pioneirismo e ousadia que sempre marcou a identidade da Jocum. Não podemos simplesmente repetir estratégias do passado esperando melhores resultados no futuro. Há algo novo, e discernir esse novo exige sensibilidade espiritual, humildade e disposição para aprender novamente. Eu diria que precisamos da voz profética entre nós de forma viva, madura e eficaz.
Este não é um tempo de nostalgia, nem de mera preservação, mas de renovação intencional. O mesmo Espírito que nos trouxe até aqui é quem nos conduzirá adiante. O jubileu não encerra a história; ele reinicia o movimento com novos propósitos, novas sementes e novas possibilidades, firmados nos mesmos valores eternos do Reino.
Sou grato a Deus por pertencer a este movimento e me comprometo, junto com a minha geração, a dar continuidade a esse legado de Deus para a Jocum e a buscar fielmente o Senhor, para que Ele continue nos mostrando o caminho que devemos trilhar em direção ao cumprimento da Sua palavra.
Em Cristo,
Hiago Angelucci