Quero ser um missionário. E agora? 

Quero ser um missionário. E agora? 

Ao longo dos últimos vinte anos trabalhando no campo missionário, tenho me deparado com uma pergunta, talvez algumas centenas de vezes. Ela talvez surja por curiosidade, por desejo genuíno, por fuga, por interesse momentâneo, por acharem algo “legal” ou, muitas vezes, porque se tornou comum participar de eventos missionários onde todos levantam as mãos e dizem: “sim, Jesus, eu quero ser um missionário”.

O problema é que, depois desses eventos ou momentos intensos, inúmeros pontos de interrogação começam a surgir na vida desses jovens. Penso que por não encontrarem respostas claras, ou talvez por perceberem que esse seja um caminho como algo supostamente exclusivista, o que eu afirmo desde já que é um equívoco, pois não há nada de elitista em ser missionário, hoje me parece que o que é vendido nas mídias sociais é que ser um missionário é quase como se fosse reservado a cristãos de uma categoria superior, possivelmente devido a isso muitos acabam desanimando e desistindo de buscar aquilo que ouviram ser uma chamada de Deus para a vida deles.

A pergunta que permanece é: e agora? Querer, desejar ou ser curioso sobre missões é uma coisa; saber o que fazer depois é outra. Quando os eventos terminam, as luzes se apagam e essa pessoa retorna para aquilo que chamamos de rotina, o ordinário da vida, a pergunta certamente retorna, e agora?

Quero, portanto, chamar a atenção dos leitores e dos inúmeros jovens que nos escrevem para a JOCUM compartilhando seu desejo de se tornarem missionários. A resposta que muitos procuram sobre como viver uma vida dedicada ao Senhor, aquilo que frequentemente chamam de missões, não é exclusivista, mas também não é algo simples. Para responder essa pergunta devemos entender que ela está profundamente entrelaçada com outras questões relacionadas à fé, à igreja e à cultura evangélica em que estamos inseridos.

Meu desejo com esse texto é ajudá-las a encontrar respostas de forma bíblica, relacional e honesta, apontando não apenas para um destino recheado de misticismo, mas para um caminho de maturidade e obediência ao ide de Jesus. 


Missio DEI – Um Deus missionário

A primeira coisa que precisamos fazer é ajustar as expectativas mais comuns quando falamos sobre missões. Com frequência ouvimos pessoas dizendo que estão em busca da missão para a SUA vida, ou tentando descobrir qual é o SEU chamado ou a SUA vocação. Embora essas perguntas sejam legítimas, elas revelam um equívoco sutil, porém profundo: a ideia de que a missão começa em nós.

Ao começar a fundamentar esse assunto, vemos que a Bíblia apresenta uma perspectiva diferente. A pessoa mais interessada em missões é o próprio Deus. Desde a fundação do mundo, é Ele quem está em missão. Deus é quem busca o ser humano no Éden (Gn 3), chama Abraão para abençoar todas as famílias da terra (Gn 12:1–3), envia Moisés ao Egito, levanta profetas para chamar o povo de volta e, na plenitude dos tempos, envia o seu próprio Filho ao mundo (Jo 3:16–17). Missões não começam com os indivíduos, ela começam no coração de Deus.

Isso significa o missio Dei. Hoje, essa é uma expressão bem utilizada em conferências missionárias e cursos sobre o tema missionário. Um dado histórico, foi a partir de 1934, que o termo começou a ganhar espaço teológico por meio de Karl Hartenstein1 Karl Hartenstein (1894–1952) foi um teólogo e missiólogo alemão, fortemente influenciado pela teologia de Karl Barth. A partir de 1934, Hartenstein passou a utilizar o termo missio Dei para enfatizar que a missão tem sua origem no próprio Deus e não primariamente na igreja. Seu trabalho ajudou a deslocar o foco da missão como atividade humana ou institucional para a compreensão de que a igreja existe para participar daquilo que Deus já está fazendo no mundo. Essa abordagem foi posteriormente aprofundada e difundida no movimento missionário do século XX, especialmente após a Conferência de Willingen (1952)., com o objetivo de esclarecer que o protagonista central das missões não é a igreja, mas o próprio Deus. Diante disso, já não se trata de convidar Deus para abençoar nossos projetos missionários, mas de discernir como nossas vidas podem cooperar com aquilo que Ele já está fazendo no mundo. Participar da missão de Deus é alinhar-se à Sua vontade, e não tentar realizar a nossa própria versão de sucesso, propósito ou realização pessoal.

Outro fundamento importante é que a missão de Deus revelada nas Escrituras não é exclusiva sobre o resgate individual de almas, mas aponta para um movimento muito mais amplo que enfatiza o resgate da humanidade e a reconciliação de toda a criação consigo mesmo. Essa abrangência fica ainda mais clara quando lemos João 3:16, texto muitas vezes reduzido apenas à salvação individual, mas que declara que “Deus amou o mundo de tal maneira”, o termo aplicado aqui por Jesus sobre a palavra mundo vem do grego kósmos, que aponta para a totalidade da criação. O amor de Deus não se limita à humanidade isoladamente, mas alcança todo o cosmo que Ele criou, sustenta e deseja redimir.

Isso é muito importante, pois nos tira a idéia de que somos o centro da narrativa bíblica, e nos coloca no nosso devido lugar, outra coisa é que começa nos mostrar que ao fazer a missão junto com esse Deus, nossa tarefa não se restringe em carimbar o passaporte das pessoas para o céu. Tem muita coisa para descobrirmos com esse Deus missionário que tem uma agenda ampla e abundante para todos os povos e nações. 

Uma missão ampla e envolvente

Essa visão sobre transformação ecoa na famosa afirmação de Abraham Kuyper2Abraham Kuyper (1837–1920) foi um teólogo, pastor e estadista holandês, líder do neocalvinismo e fundador da Universidade Livre de Amsterdã. Kuyper defendia que Cristo é soberano sobre todas as esferas da vida, incluindo igreja, política, cultura, ciência e sociedade., teólogo holandês, quando declarou: “Não existe um centímetro quadrado em toda a extensão da nossa existência sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!” Essa declaração reforça o entendimento de que a missão de Deus não é parcial nem restrita, mas total: Deus reivindica, reconcilia e restaura toda a realidade criada sob o senhorio de Cristo. Do Gênesis ao Apocalipse, vemos um Deus que age constantemente para restaurar aquilo que foi quebrado pelo pecado. Em resumo, temos um Deus missionário e que seu desejo não é apenas a salvação.

“Porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus.” Colossenses 1:19–20

A obra de Cristo é sobre a reconciliação com a humanidade e com todas as coisas. Certamente quando Deus fala todas as coisas, significa todas as coisas, com isso entendemos que a missão de Deus tem alcance universal e transcende a experiência pessoal do indivíduo. Ao lermos Apocalipse, vemos que a missão de Deus caminha para esse ápice, onde toda a criação é reconciliada, toda língua confessa o senhorio de Cristo, e Deus é plenamente glorificado.

Sem um bom entendimento da Missio Dei eu creio que essa seja uma das grandes razões pelas quais muitos acabam se frustrando no caminho missionário. Pessoas que entram nessa jornada mais como uma tentativa de auto realização espiritual do que como resposta a um Deus que já está em movimento inevitavelmente se deparam com frustração em algum momento do percurso. Por isso, é melhor que você saiba desde o início que esse alicerce é crer que Jesus é o maior interessado nessa obra e reconhecer que dependemos exclusivamente d’Ele.

O verdadeiro desafio do chamado não é descobrir o que eu quero fazer para Deus, mas aprender a discernir o que Deus deseja fazer e como Ele pode usar a minha vida dentro dos Seus planos na terra. Quando falo sobre isso, estou me referindo à vontade de Deus. Tenho utilizado o termo “agenda de Deus”, expressão muito empregada pelo Dr. Bob Moffitt, justamente para comunicar essa ideia com menos misticismo ou fatalismo. Esse termo ajuda a comunicar sobre a vontade de Deus de maneira mais concreta e menos abstrata, tornando mais compreensível para a nossa cultura evangélica.

Falar sobre a vontade de Deus na terra nem sempre é simples. Muitas vezes, esse tema é mal interpretado como fatalismo, como que se ao confiar na vontade de Deus significasse para o missionário cruzar os braços e dizer: “seja o que Deus quiser”. No entanto, discernir a agenda de Deus não nos leva à passividade, mas a uma obediência consciente, alinhada com aquilo que Deus já está fazendo nas nações. 

“O objetivo do missionário é fazer a vontade de Deus…” – Oswald Chambers3Oswald Chambers (1874–1917) foi um pregador e mestre cristão escocês, conhecido por sua profunda ênfase na formação espiritual, obediência radical e submissão diária à vontade de Deus. Seu legado tornou-se amplamente conhecido após sua morte por meio do livro Tudo para Ele (My Utmost for His Highest)

O Individualismo x A Missão de Deus 

Vivemos em um ambiente eclesiológico profundamente influenciado pela mentalidade ocidental do individualismo expressivo4Individualismo expressivo é um conceito amplamente utilizado na filosofia e na sociologia contemporânea, especialmente associado ao pensador canadense Charles Taylor. Ele descreve uma visão de mundo em que o indivíduo se torna o centro da construção de sentido, identidade e verdade, e a vida é orientada pela necessidade de expressar desejos interiores e buscar realização pessoal. , no qual o eu ocupa o centro da tomada de decisões e a vida é frequentemente orientada pela busca constante de realização, satisfação pessoal e conquistas individuais. Esse talvez seja um dos maiores desafios, ou melhor dizendo, uma das maiores barreiras para discernirmos e nos alinharmos com a agenda de Deus e com o avanço do Seu Reino na terra, porque não é sobre nós e sim sobre Deus. 

Essa se torna, portanto, uma das primeiras lutas do chamado: aprender a colocar de lado a falsa expectativa de que a missão existe para atender às nossas realizações. Quando iniciamos a busca pelo chamado de Deus com motivações equivocadas, corremos o risco de transformar a missão em um projeto pessoal de sucesso, onde talvez Deus possa estar bem longe do que você deseja fazer. Essa cosmovisão tem distorcido profundamente a imagem de Deus e do missionário, fortalecendo uma cultura de performance e visibilidade, em vez da cultura do Reino, que nos chama para uma vida marcada por sacrifício, fidelidade e perseverança em obediência à vontade de Deus.

As Escrituras nos oferecem inúmeros exemplos de homens e mulheres que precisaram abrir mão de seus próprios desejos, planos e expectativas para seguir a direção do Senhor: Abraão deixando sua terra sem garantias, Moisés perdeu sua posição no Egito, os discípulos abandonando suas redes, e o próprio Jesus submetendo Sua vontade à do Pai. Em todos esses casos, a obediência e a fidelidade foram mais importantes do que o sucesso visível.

Diante disso, somos confrontados com uma escolha inevitável sobre o chamado missionário: permanecer presos à visão ocidental e individualista da vocação ou entrar em uma jornada profunda de conhecimento do Senhor. Essa segunda opção nos conduz a uma vida de humildade, contentamento em Deus e confiança de que é Ele, e não o nosso desempenho quem sustenta e dá sentido ao chamado. 

Com isso, finalizo esta primeira parte da intrigante pergunta, quero ser um missionário, e agora?, reforço os três pontos abordados até aqui. A primeira é que servimos a um Deus missionário, que está em constante movimento de resgate e reconciliação. A segunda é que essa missão possui uma agenda ampla, que envolve toda a criação e não apenas a experiência individual de fé. A terceira é que um dos maiores impedimentos ao discernimento do chamado é o próprio ser humano, quando tenta usurpar a missão de Deus e transformar o chamado em título, posição ou meio de realização pessoal.

Este capítulo estabelece, portanto, um marco inicial para a jornada do discernimento sobre missões. Antes de perguntarmos onde ou como servir, somos convidados a alinhar nosso coração com quem Deus é e o que Ele já está fazendo no mundo. Somente a partir desse ponto de partida é possível buscar, de forma saudável, as respostas de Deus sobre o chamado que Ele faz a todos os cristãos.

Para processamento do assunto

  1. De que maneira minha compreensão de chamado tem sido moldada mais pela cultura e pelas minhas expectativas pessoais do que pela missão de Deus revelada nas Escrituras?
  2. O que muda na forma como vejo missões ao entender que Deus já está em ação no mundo e que sou convidado a participar do que Ele está fazendo?
  3. Em quais áreas da minha vida preciso abrir mão do controle, do desejo por reconhecimento ou sucesso, para discernir com mais clareza a vontade de Deus? 
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    Karl Hartenstein (1894–1952) foi um teólogo e missiólogo alemão, fortemente influenciado pela teologia de Karl Barth. A partir de 1934, Hartenstein passou a utilizar o termo missio Dei para enfatizar que a missão tem sua origem no próprio Deus e não primariamente na igreja. Seu trabalho ajudou a deslocar o foco da missão como atividade humana ou institucional para a compreensão de que a igreja existe para participar daquilo que Deus já está fazendo no mundo. Essa abordagem foi posteriormente aprofundada e difundida no movimento missionário do século XX, especialmente após a Conferência de Willingen (1952).
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    Abraham Kuyper (1837–1920) foi um teólogo, pastor e estadista holandês, líder do neocalvinismo e fundador da Universidade Livre de Amsterdã. Kuyper defendia que Cristo é soberano sobre todas as esferas da vida, incluindo igreja, política, cultura, ciência e sociedade.
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    Oswald Chambers (1874–1917) foi um pregador e mestre cristão escocês, conhecido por sua profunda ênfase na formação espiritual, obediência radical e submissão diária à vontade de Deus. Seu legado tornou-se amplamente conhecido após sua morte por meio do livro Tudo para Ele (My Utmost for His Highest)
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    Individualismo expressivo é um conceito amplamente utilizado na filosofia e na sociologia contemporânea, especialmente associado ao pensador canadense Charles Taylor. Ele descreve uma visão de mundo em que o indivíduo se torna o centro da construção de sentido, identidade e verdade, e a vida é orientada pela necessidade de expressar desejos interiores e buscar realização pessoal.

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